2007-03-15

É louco - dizem...

Movimentos lentos quase robóticos. Maquinalmente leva a cigarrilha à boca e puxa um bafo. Afasta o braço e dá um toque na cigarrilha para que a cinza de uma vida ardida caia onde tudo é cinzeiro.
É louco - dizem...
Vive num tempo que não é o nosso, num espaço particular. E o fumo sai-lhe da boca, das narinas, em nuvem anárquica, sem que o sopre.
Bebe um copo de Martini e uma gota escorre-lhe descuidada pelo canto da boca. Desde o primeiro sentir até a alcançar já caiu solitária no canto da mesa e só resta apagar o seu rasto pelo queixo, na barba de um dia.
É louco - dizem...
Eu pergunto-me: - O que pensará nestes momentos de solidão, nestes momentos de julgamento dos que pensam saber a sua ausência e tentam avaliar o seu desleixo?
Levanta-se da cadeira mais rápido do que se sentou e mesmo assim num movimento lento.
Olha ao redor, tentando memorizar cada pormenor da sala do bar no fundo vazio.
Junto à porta de saída, de costas voltadas como em toda a sua vida, esqueceu já a fotografia do dia igual a amanhã.
É louco - dizem...