2006-03-10

Lisboa Corriqueira

Acordar cedo e apanhar o comboio. Iniciar uma viagem tendo por paisagem o mar; o bugio, a ponte sobre o Tejo, o Cristo Rei, a margem Sul... De repente surge um personagem para animar a viagem. Vai-se dirigindo um a um a cada passageiro em particular, dizendo um verso, perguntando uma adivinha, contando uma anedota... A mim calhou-me uma anedota. Já conhecida talvez e até com pouca piada, mas naquele momento todos os presentes naquela carroagem escutavam aquele homem, disfrutando do momento de entertenimento: - "O telefone, é masculino ou feminino?" seguido de um silêncio à espera de uma resposta. - "Masculino" respondi eu, sabendo que a resposta estava errada, mas não me lembrava de nenhuma justificação para telefone ser feminino! Ao que o senhor simpaticamente me esclareceu: - "não, não, telefone é feminino, porque tem periodos"... houve uma risadinha geral, mas não tão grande como quando há momentos atrás o senhor tinha perguntado: - "porque é que as cuecas das chinesas têm dois buracos? R.: porque as chinesas têm duas pernas!"
E assim se fez o trajecto, deixando a paisagem para trás e iniciando agora uma caminhada pelas ruas da baixa lisboeta, passando pela Sé com destino a um pequeno almoço com uns pastéis de nata afamados acabadinhos de sair do forno. Lá vem ele, acompanhado de um café, para satisfazer as papilas ansiosas. Huuummmmm! Só o cheirinho é delicioso...
Continuando o passeio em hora de expediente, são poucas as pessoas na Rua do Carmo e até parece que o Fado ressoa mais alto, entrando dentro de nós como o ar nos pulmões numa inspiração profunda.
Ao fundo uma velhinha que já não quer pertencer a esta realidade, grita e gesticula movimentos bruscos, franzindo as rugas já marcadas pelo sol. Todos reparam, mas tornam-na transparente, como se não estivesse ali... ou então, é vista todos os dias e por isso hoje, só alguém fora do habitual, vê aquela alteração de comportamento.
Mais adiante, na Rua Augusta, a típica fuga aos questionários que nos levam depois a um cochicho num prédio para mais não sei quantas horas de inquérito para tentar vender um produto qualquer que nunca ninguém quer! Será que eles não sabem que aquele tipo de abordagem não é uma boa estratégia de marketing?
É um dia soalheiro, apesar de estarmos em Março ainda se apregoam castanhas quentinhas na Praça do Rossio, ainda passam eléctricos antigos e ainda se marcam encontros ocasionais para almoço em frente à Pastelaria Nacional.

1 Comments:

Blogger antigénio said...

"Levas já o bibe vestido por baixo do casaco, para não perdermos tempo!"...
No preciso momento em que saiamos do barco, começava a corrida, cuja meta era a dor de estômago no fim da frase: "A mãe agora tem de ir, até logo. Porta-te bem. Olha ali aqueles meninos.."
Era exactamente esta. Na altura, a rua de todos os dias e das pessoas grandes,em que não havia tempo para a curiosidade, hoje a R. Augusta.
Um dia haveria de analisá-la demoradamente e sem as botas para correcção do pé chato!
Nem imaginas como teria sido mais eficaz, teres-me segredado ao ouvido, assim que o barco estremecia no seu encontro com o cais, "Partida, largada, fugida!"

sábado mar. 11, 11:46:00 a.m. WET  

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